História da fundação dos
bairros do Bixiga e do Bexiga

Egydio Coelho da Silva

 

Origem do nome Bexiga e Bixiga

 

O apelido Bixiga (até hoje o nome não existe oficialmente), que o povo colocou no bairro, teria origem em três hipóteses:

1.º - o nome teria sido dado pejorativamente porque os portadores de varíola (bexiga);

2. º - o nome seria oriundo de um matadouro, que existia na Rua Santo Amaro;

3.º - Do nome de família de algum ascendente de Antonio Bexiga, proprietário da estalagem do Bexiga.

 

Primeira hipótese

1.º - o nome teria sido dado pejorativamente porque os portadores de varíola (bexiga) se refugiavam na Chácara do Bexiga, pois o Bairro do Bixiga nasceu na parte inicial da Chácara do Bexiga, isto é, nos Campos do Bexiga.

O historiador Nuto Santana, que foi chefe da subdivisão de Documentação Histórica do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo, levanta outras hipóteses em seu livro "São Paulo Histórico".

Uma dessas hipóteses diz respeito à varíola ou "bexiga" como era popularmente conhecida. (1)  

São Paulo muitos surtos de varíola durante sua história.

Vem daí a hipótese já que o local serviu de refugio aos bexigosos, dando o nome ao bairro. 

No entanto, isso não aconteceu só com o Bexiga.

Sabe-se que a região da Tabatinguera, quando ainda era periferia de São Paulo, teve uma casa para abrigar os portadores de varíola.

O mesmo se deu com a Rua de São Bento, que também ficava distante do centro. "Um edital inédito de 1.724 se refere mesmo a uma "rua das Bexigas", que seria hoje a Rua de São Bento.

E esta rua nada tinha ver com o antigo bairro do Bexiga ou Chácara do Bexiga.

Par volta de 1837, mais ou menos, a região propicia para isolar os doentes era o Pacaembu.

Acrescente-se que os negros de Santos ou do Rio de Janeiro não entravam na cidade sem uma quarentena obrigatória num rancho existente na região do Lavapes.” (7)

Portanto, o apelido bexiga era dado a pessoas ou lugares, que algum contacto tivessem tido com a doença.

Talvez, pelo fato de aqui se refugiaram negros portadores de varíola, o nome Bexiga poderia ter tido essa origem.

Segunda hipótese 

3. º - o nome seria oriundo de um matadouro, que existia na Rua Santo Amaro.

Para o historiador Antonio Egidio Martins, em 1.773, foi feito de taipa de pilão "com toda a segurança" o matadouro "na Rua de Santo Amaro, nas imediações da Capela de Santa Cruz e Rua Jacareí..." (1) (2)

 Mais tarde, foi transferido para o final da hoje Rua Humaitá, junto ao Riacho Itororó (Av. 23 de Maio), no qual se vendiam ou davam bexigas de boi e de porco.

Já Afonso A. de Freitas dá a sua versão quanto ao nome do bairro. Para ele Bexiga viria de "bexiga de boi", que o dono da chácara venderia e que era, na época, um negocio bastante lucrativo. (5)

Segundo Nuto Santana, essa é uma hipótese que deve ser considerada, pois, o negócio de tripas foi bem explorado em São Paulo, existindo para sua venda, inclusive, umas carrocinhas, que percorriam as ruas “ao chouto de umas pilecas anciãs, enquanto o tropeiro (2) , no alto da boleia, soprava numa trombeta de chifre, com toda força dos bofes, umas notas em sustenido”.

Além disso o matadouro foi naquelas cercanias fronteiriço à chácara, que talvez tivesse dado nome ao bairro.

 

Terceira hipótese

2.º - o nome de família de  Antonio Bexiga, proprietário da estalagem do Bexiga ou de um seu ancestral, ter-se-ia transferido para a Chácara do Bexiga e, posteriormente, também para o antigo bairro do Bexiga e, em seguida, para o bairro formado pelos italianos em 1.878.

É interessante observar que Saint-Hilaire diz em 1.819:

"Existe em São Paulo uma ponte chamada Ponte do Bexiga e que talvez tenha o nome do hoteleiro ou de algum de seus predecessores"(3) .
Na descrição, refere-se nitidamente por duas vezes a "um honesto Bexiga", que ali vivia na ocasião.

 Por que, então, esse "algum de seus predecessores?".
Portanto, é de supor que - se até a ponte era conhecida como "Ponte do Bexiga" - com certeza essa região também teria o mesmo nome, oriundo do sobrenome de família "Bexiga".

Será que a alcunha passou de pai para filho ou o hoteleiro não deu o nome ao lugar e sim o lugar que lhe transmitiu o apelido? (4)

João Batista C. Aguirra, porém, afirma que  Antonio Bexiga, que lhe deu o nome ao bairro.

Consta inclusive que seu inventário se encontra em um dos cartórios de Santos.
A escritura de 30 de agosto de 1863 registra que Antônio José Dias Leite vendeu a Chácara para Thomaz Luiz Álvares.

Portanto, é de supor que Antônio Bexiga não era proprietário da Chácara, mas tão somente posseiro de parte do início da Chácara, que se iniciava nas margens do Ribeirão Anhangabaú e pertencia a Antônio José Dias Leite até 30 de agosto de 1863, quando então a vendeu para Thomaz Luiz Álvares.

Algum seu ancestral teria a posse do imóvel, onde construiu a estalagem do Bexiga, no mínimo desde do final do século 18. 
Daí, o nome Bexiga para a região ter aparecido em 1.793.

Conclui-se que o nome de família Bexiga deu nome ao bairro, mais tarde este nome se transferiu para a Chácara do Bexiga e, posteriormente, ao novo bairro do Bixiga. fundado em 1º de outubro de 1878.

Na "Reminiscência", de João Luiz Promessa, na relação dos sepultamentos na Igreja de Santo Antônio de Santos (Livro aberto a oito de janeiro de 1726), por Manuel Jerônimo de Oliveira (Ministro), o seguinte: “N. 15- Antônio Bexiga, falecido em São Paulo em 13 de junho de 1857”, deixando a quantia de 100$000 de esmola para a Ordem Terceira. (4).

Isto afasta a hipótese de que não se tratava de um apelido por ele residir em um antigo sitio de bexigosos ou ter sofrido da moléstia.

Bexiga era seu verdadeiro nome de família.

João B. C. Aguirra cita nomes, que poderiam ser ancestral do estalajadeiro Antônio Bexiga: Antonio Pereira Bexiga, também conhecido por Antonio Pereira Piques 

Segundo Nuto Santana, pelo recenseamento de 1.777, Antonio Pereira Piques estava, na época com 60 anos. Era casado com Joana Ignácia; viviam em companhia de uma liberta, chamada Íria, e de dois agregados, além de seis escravos. (5)

Mas, não resta dúvida de que, tomando por base o surgimento da denominação Bexiga (entre 1.789 e 1.792), podemos concluir que Antonio  Bexiga, o estalajadeiro, que hospedou Saint-Hilaire em 1819, não deu o nome ao bairro.

O mais provável é que teve origem no nome de seu pai ou avô, que tinham o mesmo nome de família: Bexiga.

É de se destacar que, quando uma determinada região ainda é muito pouco povoada, a referência a ela se faz ao nome de uma pessoa que seja a proprietária ou que tenha a sua pose.
Um exemplo é a "Cachoeira dos pretos", que se encontra no município de Joanópolis no estado de São Paulo.
A proprietária do imóvel, onde se acha a cachoeira, tinha o sobrenome, de origem italiana: Pretti.
Aí de boca em boca, deixou de ser Cachoeira dos pretti e passou a ser conhecida como "Cachoeira dos pretos".

Em razão do nome ser bastante curioso e sem explicação conhecida, muitas lendas surgiram. Uma que os escravos fugidos se escondiam nas suas imediações, outra que os senhores, proprietários de escravos, costumavam jogar escravos rebeldes do alto da Cachoeira, para castigá-los e/ou servir exemplo para que outros escravos, para serem mais obedientes e menos rebeldes.
Com o bairro do Bexiga, pode ter acontecido o mesmo.

O nome de família dos primeiros moradores era Bexiga.

Nome pouco comum e ainda lembrava bexiga de boi ou com a epidemia varíola, que deixava marcas semelhantes à bexiga no rosto das pessoas.

Daí as lendas que surgiram em razão de ter nome estranho. Pouco conhecido como sobrenome de família.

 

30 de janeiro de 1793-Arquivo Aguirra. Transporte de pedras para o chafariz

 

 

 

O nome surgiu em 1.792

Embora exista muita controvérsia quanto ao nome, pode-se, com certeza, definir a data do aparecimento do nome Bexiga para a região:  1792 ou um pouco antes. 
É o que afirma Nuto Santana, baseado em documentos históricos, pertencentes à Subdivisão de Documentação Histórica do Departamento de Cultura (atual Divisão do Arquivo Histórico) e ao Arquivo Aguirra. (NM-37)

Um documento, datado de 30 de janeiro de 1793, especifica que proprietários de carros deveriam conduzir 250 carradas de pedra do Bexiga ao Chafariz da Misericórdia, que estava sendo construído.

E a citação mais antiga que se conhece da palavra Bexiga como nome da região. E como esse documento é de janeiro de 1.793, deduz-se que em 1.792 o bairro já era conhecido par esse nome. (8)

Portanto, o nome Bexiga para a região (antigo bairro, que se restringia a hoje Praça das Bandeiras) surgiu 86 anos antes do nascimento do Bixiga, bairro iniciado pelos italianos quando do loteamento de parte da Chácara do Bexiga.

Como podemos observar, o local passou a ser conhecido "vulgarmente por Bexiga", a partir de 1.792.

Mas, a dúvida persiste sobre a verdadeira origem do nome Bexiga.  

 

FÓRUM DE MORADORES E S/ HISTÓRIA DO BIXIGA EM 25 DE FEVEREIRO DE 2012

De: Joacil de Paula Passos.

Cidade: Rio de Janeiro. Estado: RJ. País: Brasil.

Para: Fórum de moradores e s/História do Bixiga.

Caro Autor,
Li toda sua página na Internet sobre o Bairro do Bexiga e não identifiquei, salvo engano, qualquer parágrafo que indicasse a origem do nome.
Grato.
Joacil, bom dia,

Na verdade, existem três versões sobre a origem do nome do antigo bairro do Bexiga ou para o atual Bixiga.
1- A primeira é que
o nome teria sido dado pejorativamente ao bairro porque os portadores de varíola (bexiga) se refugiavam na Chácara do Bexiga.

Não é fácil aceitar esta hipótese, porque durante os séculos 18 e 19 havia muitos lugares em São Paulo, que tinham casa para abrigar os portadores de varíola, inclusive na Tabatinguera e Rua São Bento e não consta que aqui houvesse casa semelhante. Mas os historiadores, que acham válida esta interpretação, costumam dizer que a Chácara do Bexiga era mata fechada e próxima ao centro. E os portadores de varíola se escondiam aqui para não serem confinados em isolamento.

2- A segunda hipótese é que  o sobrenome de  Antonio Bexiga, proprietário da estalagem do Bexiga ou de algum de seus ancestrais, teria se transferido para  o antigo bairro do Bexiga  e, posteriormente, também para Chácara do Bexiga.

3- A terceira hipótese é que o nome seria oriundo de um matadouro, que existia na Rua Santo Amaro, inaugurado em 1773, que vendia bexigas.
Esta me parece a mais provável, pois,
para o historiador Antonio Egidio Martins, o matadouro "era na Rua de Santo Amaro, nas imediações da Capela de Santa Cruz e Rua Jacareí..."

Em 1773, foi feito de taipa de pilão "com toda a segurança".
Como o nome Bexiga surgiu por volta d 1793, vinte anos depois, é bem provável que durante esse tempo se fixasse o nome do bairro Bexiga, onde se adquiria bexigas de boi, que servia para muitas coisas na época, inclusive brincadeira de crianças.

Na verdade nenhum historiador pesquisado afirma com convicção qual das hipóteses teria sido a verdadeira que deu origem ao nome Bexiga. Eu, porém, fico com a terceira.

Abs. Egydio Coelho da Silva

 

Página inicial da história do Bixiga e de São Paulo antigo

Referências bibliográficas – desta página

 

(1) Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 35.

 

(2) Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 37, citando Nuto Santana.

 

(3) Saint-Hilaire, Auguste de – Viagem à Província de São Paulo, págs. 161 e seguintes

(4)  Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 35.

 

(5) Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 36.

 

(6) Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 37.

 

(7) Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 35

 

(8) Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 37