História da fundação dos bairros do Bixiga e do Bexiga

Egydio Coelho da Silva

 

Capítulo I - Apresentação

·         Motivo, que determinou a produção deste livro.

·         Inauguração de um bem público marcou o nascimento do bairro.

·         Considera-se Antônio José Leite Braga o fundador do Bixiga.

·         Algumas pessoas confundem datas históricas importantes com a data de fundação.

·         A cidade de Marília-SP é exemplo de data histórica importante, que foi considerada a da fundação.

·         Campos Novos Paulista, a cidade que Assis fez encolher e ficar anã.

·         Quem foi o primeiro paulista e quem foi o primeiro brasileiro?

·         Conceito de propriedade indígena:

 

* "Como se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?"

* Quem fundou São Paulo: padre José de Anchieta, cacique Tibiriçá, João Ramalho ou o padre Manoel da Nóbrega?

Adquira o livro impresso: https://amzn.to/39LaPyl

 


Motivo, que determinou a produção deste livro


Este livro surgiu porque, em reuniões da sociedade União do Bixiga
(1), se perguntava por que não havia um dia para ser considerado como a data de fundação do bairro.

 

(1) União do Bixiga:
Entidade, tipo sociedade de amigos de bairro, fundada e presidida inicialmente por Nélson de Abreu Pinto, proprietário do então Restaurante La Távola.
 Suas reuniões aconteciam no próprio restaurante.
Tinha por finalidade unir todas as lideranças e entidades do bairro no trabalho de melhorias e de preservação dos valores culturais do Bixiga.

 

Alguns participantes da reunião se comprometeram a fazer pesquisas, mas de antemão já havia quase consenso de que o bairro era muito antigo; teria nascido pouco tempo depois da fundação de São Paulo que foi em 25 de janeiro de 1554.
Voltei para casa, matutando sobre esse assunto e me deu um estalo quando cai na real e entendi que não era correta a interpretação de que o bairro era muito antigo.

Como poderia ser antigo se tudo mundo sabia que se tratava de um bairro formado inicialmente pela maioria de imigrantes italianos (2)?

 

(2) Imigrantes italianos:
A intensa imigração de italianos, no final do século19, tornou a cidade praticamente bilíngüe.

Indústrias e bairros novos surgiram por todos os lados.
A cidade que, segundo o recenseamento de 1872, tinha pouco mais de 31.000 habitantes, alcançava 65.000 em 1.890 e cerca de 200.000 em 1900.

Um crescimento espantoso de quase 700% em apenas 28 anos.

 

Ai então comecei a reler diversos livros, que falavam da história do Bexiga ou do Bixiga.

E esta pesquisa me levou a constatar que realmente o bairro nascera num momento em que a imigração de italianos em São Paulo era muito forte.
Encontrei então a data de primeiro de outubro de 1878, quando D. Pedro II
(3) lançou a pedra fundamental de um hospital no bairro.

 

(3) Dom. Pedro II:
O segundo Imperador do Brasil reinou durante 58 anos, era filho de Dom  Pedro I, nasceu no Rio de Janeiro, em  dois de dezembro de 1825.
Foi
batizado com o nome de Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel.
A abdicação do pai tornara Pedro II imperador com apenas cinco anos. Dom Pedro II demonstrou muito tirocínio e sempre esteve atento às novidades tecnológicas do seu tempo e procurou, no seu império, modernizar o Brasil.

Faleceu em Paris em  cinco de dezembro de 1891, aos 66 anos.


Este hospital não teve sequer sua construção iniciada, o que confirma a máxima de um humorista argentino:

“La piedra fundamental es la única que no es fundamental”.

No entanto, a inauguração solene do loteamento, contando com a presença do Imperador, que lançou a pedra fundamental do hospital, mostra que já havia uma pequena comunidade no local.

Encontrei também, um anúncio de terrenos no Bexiga (4), no mesmo loteamento, onde o hospital deveria ser construído.

O anúncio, publicado em 28 de julho de 1878, dois meses antes do lançamento da pedra fundamental do hospital, evidencia que o loteamento já estava legalizado.
Muito embora não deixe claro se já havia moradores no bairro.

 

(4) Terrenos do Bexiga:
Vendem-se magníficos terrenos às braças ou em grandes lotes, com pastos ou matas, a vontade do comprador.
Não há nada a desejar nestes terrenos dentro da cidade, água corrente, em diversas fontes, lindos golpes de vista para as bonitas chácaras, ruas de 60 palmos de largura.
Preços baratíssimos, desde 20$, 30$, 40$ até 50$000 a braça, com 30 braças e mais de fundo, conforme a localidade escolhida.
A planta acha-se nas oficinas de Santo Antonio, no Bexiga, podendo ser examinado a qualquer hora, tanto a planta como os terrenos.

Para tratar com proprietários na mesma oficina ou com E. Rangel Pestana, na Rua Imperatriz n. 44. (Anúncio, publicado em “A Província de S. Paulo”, hoje O Estado de S. Paulo em 28/07/1878.)

 
Este fato poderia gerar a interpretação de que, se alguns lotes já tinham sido vendidos, o bairro havia nascido antes do lançamento da pedra fundamental do hospital.
Mas o que consolida o nascimento do bairro, com certeza, é o inicio de construção de um bem público.
Neste caso, o hospital, que seria usado pelos moradores.

A prova de que o bairro realmente nasceu em 1º de outubro de 1878 ficou ofuscada, quando localizei um ofício de 30 de janeiro de 1793, dando conta de que as autoridades municipais autorizaram o transporte de pedras para ao primitivo chafariz do Bexiga.
Este fato está registrado no Arquivo Aguirra (34).

 

(34) Arquivo Aguirra.
Acervo documental produzido, coletado e organizado por João Baptista de Campos Aguirra (1871-1962).
Trata-se de coleção de fichas, mapas, cadastros, livros, fotografias, entre outros itens, que integram um dos fundos do Serviço de Documentação Textual e Iconográfica do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.


Portanto, em 1793, já se registra que a região, denominada Bexiga, existia.

Embora não fosse ainda uma comunidade com costumes e objetivos comuns.

Agora, então, eram 85 anos antes do ato solene de inauguração do loteamento, que me parecia mais correto para o surgimento do bairro, ocupado por maioria de italianos.
Acrescente que, um ano depois, em seis de fevereiro de 1794, uma escritura pública também deu nome de Chácara do Bexiga à região toda. Portanto, 84 antes da data por mim interpretada, que seria a da fundação do bairro do Bixiga.
E por que, então, julgaria eu que o bairro do Bixiga não era um bairro bem antigo, contrariando o entendimento da maioria?
Parti da interpretação de que a data de fundação de um bairro ou de uma cidade deve ser o momento, em que a comunidade começa a surgir, como aconteceu com a cidade de São Paulo, que praticamente nasceu, quando se inaugurou o Colégio dos Jesuítas (11).

(11) Colégio dos Jesuítas

No dia 25 de janeiro de 1554, com a participação dos nativos, se construiu uma capela rústica, cujo objetivo era a catequese dos índios e também o de servir de abrigo a viajantes

 

.

O colégio e a pousada, situados entre os Ribeirões Tamanduateí
e Anhangabaú, ganharam fama entre os moradores do litoral
 e a vila começou acrescer.

Em 1824, a capela, o Colégio e o povoado na visão do pintor Baptiste Debret.

 

Na maioria das cidades, quando não se encontra documento robusto e confiável,  os historiadores consideram que a fundação das cidades se dá na data da escritura de doação de terreno para construção de um bem público a ser usado pela nascente comunidade.

E quase todas as cidades brasileiras têm como data de fundação o dia em que uma pessoa, que é considerada a fundadora, doa terreno para construção de um bem público.

Normalmente, o terreno se destina à construção de igreja, mas poderia ser hospital, escola, praça pública, estação ferroviária ou rodoviária.
Até mesmo um campo de futebol.

No caso do Bixiga, entendi que a melhor data é realmente 1º de outubro de 1878, quando D. Pedro II, imperador do Brasil, lançou a pedra fundamental de um hospital no terreno, doado por Antônio José Leite Braga (6), no loteamento, que o fundador arruara no início da Chácara do Bexiga.

 

(6) Antônio José Leite Braga, proprietário do loteamento do Bixiga, ofereceu uma quadra de seus terrenos, com 8475 braças quadradas, à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia.
Na carta, que enviou à Irmandade, Leite Braga diz que é "irmão" da Santa Casa, mas, "quando não fosse, isto não me abafaria o desejo de ser útil a uma instituição tão merecida do auxílio de todos".
 Conta nessa carta que chegou ao Brasil quando ainda criança e aqui conseguiu recursos que lhe permitiram agora fazer essa doação "a favor dos necessitados" (esta carta foi publicada no jornal "A Província de São Paulo", em 02/10/1878).

Porém, havia nessa doação uma cláusula: a Santa Casa teria que construir na quadra doada um hospital, destinado aos pobres de São Paulo.

E as obras deveriam se iniciar dentro de dois anos.

A Santa Casa aceitou a doação, mas não cumpriu a cláusula, que a obrigava a construir o hospital no Bixiga.
Preferiu investir no imóvel, próximo ao hoje Largo do Arouche, em vez de desviar recursos para outro empreendimento.
Antônio José Leite Braga faleceu, pouco tempo depois.

Após seu falecimento, a viúva, Eugênia de Araújo Braga, se casou, em segundas núpcias, com Fernando de Albuquerque, que prosseguiu nas vendas dos lotes e, conseqüentemente, na formação do bairro do Bixiga.

 

Espero que este livro não tenha apenas a utilidade de provar a verdadeira data de fundação do bairro, mas que sirva também de orientação a todos os que desejam descobrir a verdadeira data de fundação de sua cidade, de seu bairro ou de sua comunidade.

Nas minhas pesquisas, constatei que há cidades e bairros, que têm a data de fundação alicerçada na primeira prova de que a comunidade já existia ou começava a nascer.

A maioria das cidades escolhe a data correta da sua fundação.

Algumas, porém, nem sempre.
Confundem datas históricas importantes com a data de fundação.

Exemplo de descuido com a data de fundação, encontrei na história da cidade de Marília.

Recordo-me do diretor do jornal, Correio de Marília, Anselmo Scarano, me dizer, na década de 1970, num encontro de diretores de jornais na sede do CBI (8), que seu jornal era mais velho do que a sua cidade.
Seu jornal fora fundado no dia 1º de maio de 1928.

(8) – CBI-Consórcio brasileiro de imprensa, empresa com sede em São Paulo, que na época já era representante de mais de 60 jornais do interior do Estado de São Paulo.

 

Ironicamente ele censurava a escolha de uma data posterior à verdadeira data de fundação da cidade.

Pois, quatro de abril de 1929 é festejado como sendo a data de fundação de Marília (7).
Provavelmente, quem fez a pesquisa da história de Marília procurou uma data que, na ocasião, seria mais interessante, talvez até mais emocionante. Não se preocupou com a data correta da fundação.
Mas, a verdade histórica é que já existia uma comunidade muito ativa e forte no local e até havia um jornal circulando quase um ano antes da data considerada de fundação da cidade.

É de se acreditar que dirigentes políticos da cidade optaram pela data de emancipação política de Marília, porque lhes era conveniente do ponto de vista político-eleitoral.

Trata-se de procedimento costumeiro em muitas cidades do interior do Brasil.
 

(7) Marília começa a nascer, quando Bento de Abreu Sampaio Vidal abre um loteamento em seu patrimônio, sabendo que a Companhia Paulista de Estradas de Ferro vinha avançando seus trilhos.

A Paulista tinha por norma inaugurar as estações em ordem alfabética. 

Como a estação anterior era Lácio, logo a próxima deveria se iniciar com a letra "M". 

A própria Cia. Paulista então sugeriu a Bento de Abreu os nomes de “Marathona”, “Mogúncio” e “Macau”. 
Ele não gostou de nenhum e escolheu o nome de Marília, pois lera e se emocionara com o poema de Tomás Antônio Gonzaga, “Marília de Dirceu”.
Como distrito, já denominado Marília, foi criado em 22 de dezembro de 1926. Elevada a município, sua instalação oficial se deu a quatro de abril de 1929, data em que é comemorada sua fundação.


Portanto, constata-se que se escolheu uma data histórica importante, mas não a verdadeira data de sua fundação.

É pena que não haja maior desejo de se apurar a data correta de fundação de comunidades: cidades, distritos ou bairros.

A mim, me parece que é fundamental fazer justiça à memória dos verdadeiros fundadores.
Não há de minha parte intenção de criticar especificamente a aparente falta de preocupação com a verdade histórica de Marília.
Na realidade, muitas outras cidades fizeram a mesma coisa.

Tão somente esta citação tem objetivos didático e histórico.

 Ela é apenas um exemplo, pois igual a Marília, existem muitas outras cidades, que adotaram o mesmo critério: escolheram uma data histórica importante para indicar a fundação da cidade.

Na maioria dos casos, a emancipação política. 

Mas, data histórica importante nem sempre é a verdadeira data de fundação da comunidade.
Evidentemente que a data mais importante, inclusive da vida pessoal de cada um, é a primeira.

Por isso que, para cada indivíduo, sua data de nascimento é sempre a mais importante de todas as que marcaram sua existência.

Nem poderia ser diferente, porque nenhum outro acontecimento de sua vida teria sequer existido se não houvesse seu nascimento.
Com as cidades e bairros é a mesma coisa.

Não haveria outras datas históricas importantes para a comunidade, como elevação à condição de vila, de distrito, emancipação, etc. se a sua fundação não tivesse acontecido.

Emancipação política, elevação à comarca sequer teriam existido se não houvesse a fundação.
Portanto, a data de fundação é, sem dúvida, a data mais importante de uma comunidade.

E é na busca desta data que o pesquisador deve se ater por questão de fidelidade à verdade histórica.

Como exemplo de data correta de fundação, podemos citar a cidade de Assis, interior do estado de São Paulo.
Sua fundação se deu em 1º de julho de 1905, quando Francisco de Assis Nogueira (9), que tinha o título de capitão, doou terreno para construção de uma igreja.

 

(9) Capitão Francisco de Assis Nogueira.

Era bandeirante, por índole e formação.

Chefe de prestigio nas zonas, que povoava.
Sertanista experiente, muito respeitado, pelo seu bandeirantismo.

Deixou a cidade de Botucatu, quando esta já era comarca.

Ganhou os sertões da Alta Sorocabana.

Expulsou os índios.
Fundou povoações, principalmente a cidade de Assis, cujo nome relembra seu fundador.

Nasceu em Baependi-MG, no ano de 1821 e faleceu em julho de 1908, filho de Francisco de Assis Nogueira.

Tri-neto do Capitão Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, fundador da cidade de Baependi-MG.

 

O nascente povoado recebeu o nome de Assis, em homenagem ao seu fundador, Capitão Francisco de Assis Nogueira, e do santo de sua devoção, São Francisco de Assis.
Capitão Francisco registrou a doação do terreno para construção da igreja em Assis na comarca de Campos Novos Paulista (10).

(10) Campos Novos do Paranapanema
Atual, Campos Novos Paulista pode ser considerada a cidade que Assis fez encolher e ficar anã.

Campos Novos, a mais antiga cidade do Sertão do Paranapanema, começou a nascer por volta de 1852, quando José Teodoro de Souza, mineiro de Pouso Alegre, chegou à região, onde construiu diversas casas.

Em 1856, requereu às autoridades de Botucatu a posse das terras.

Nelas, construiu uma capela invocando São José, às margens do rio Novo (afluente do rio Paranapanema).

Em 1885, passou a município e elevado à comarca em 1892.
Era uma das três cidades mais importantes existentes no oeste do sertão paulista.

A mais próxima da capital de São Paulo era Sorocaba, mais ao interior, aparecia Botucatu e, a cerca de 500 km, ficava Campos Novos.

Quando se iniciou a construção da Estrada de Ferro Sorocabana, o projeto de sua penetração pelo interior de São Paulo previa sua passagem por Campos Novos.

Porém, os políticos locais entenderam que isto seria prejudicial porque aumentaria a insegurança e traria maus costumes à pacata cidade.

A partir de 1914, quando os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana chegaram a Assis, a maior parte da sua população migrou para Assis.
Posteriormente, até a comarca foi transferida para Assis.

Campos Novos Paulista, que seria hoje uma das maiores cidades do interior de São Paulo, estacionou e regrediu.

Talvez até tenha sido melhor: cidade pacata e com o melhor clima da região.

Sua população em 2015 não chegava a cinco mil habitantes.

É um dos 15 municípios paulistas considerados estâncias climáticas do Estado de São Paulo.


Também devemos destacar como correta a data de fundação da capital do Estado de São Paulo, cujos historiadores optaram pelo dia, em que se deu a instalação do Colégio dos Jesuítas.

Até então, em São Paulo, havia apenas aldeias indígenas.

Antes de 25 de janeiro de 1554, em São Paulo, havia apenas aldeias indígenas e a mais importante, com relação ao nascimento da cidade, era, com certeza, a chefiada pelo cacique Tibiriçá (12).

 

(12) Cacique Tibiriçá, nascido por volta de 1480, Tibiriçá (“maioral” em tupi) era um cacique, cuja aldeia tinha sede no Inhampuambuçu (lugar que se vê de longe), Largo são Bento.

Teve diversos filhos com diversas índias e a sua preferida era Potira, mãe da maioria deles. Em 1513 acolheu o naúfrago português, João Ramalho.

Tibiriçá se aproxima dos colonos portugueses, oferecendo apoio. Outros caciques achavam a atitude de Tibiriçá impensada e maluca.

Em 1553, os jesuítas chegaram ao Planalto de Piratininga e logo perceberam que a melhor forma de catequizar os índios era se aproximando de Tibiriçá.
Com ajuda de Tibiriçá, no dia 25 de Janeiro de 1554 inauguraram o Colégio Jesúita de São Paulo.

Tibiriçá inclusive transferiu sua tribo para aréa com o objetivo de proteger os jesuítas do ataque de outros índios. Ao redor do Colégio surgiu um povoado, que passou a se chamar Vila de São Paulo de Piratininga.

Por volta de 1560 os líderes tamoios convidaram Tibiriçá, de quase 80 anos, a participar da aliança.

Ele enganou os tamoios dizendo que se aliaria.
No dia do ataque os portugueses já estavam preparados e derrotaram os tamoios.

Tibiriçá matou seu próprio sobrinho, Jagoanharó, filho de Piquerobi, mas foi gravemente ferido.

Tibiriçá veio a falecer no Natal de 1562 na Vila de São Paulo de Piratininga com mais de oitenta anos. Teve seus restos mortais acolhidos na Igreja da Praça da Sé.

 

O cacique Tibiriçá era índio tupiniquim (13).

 

(13)Tupiniquins, também chamados tupinaquis, topinaquis e tupinanquins.

A origem da palavra teria como raiz a expressão tupinã-ki, ou "tribo colateral, o galho dos tupis".

Habitavam, por volta do século XVI, duas regiões do litoral do Brasil: o sul do atual estado da Bahia e o litoral do atual Estado de São Paulo, entre Cananeia e Bertioga.

Trata-se do grupo indígena com o qual se deparou a esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral em 23 de abril de 1500.
Os colonizadores portugueses fizeram amizade com os tupiniquins e passaram a frequentar as suas aldeias.

Queriam a aliança, com o intuito de proteger a vila de São Vicente.

Isto foi bom para os lusitanos, mas não para os tupiniquins, que tiveram de enfrentar a ira dos tupinambás, que atacaram e dizimaram a população de várias de suas aldeias.

 

Sua aldeia ficava na confluência do ribeirão Anhangabaú (14)

e do ribeirão Tamanduateí (15), cujo local os índios chamavam de Inhampuambuçu (16), onde é hoje o Largo São Bento.

Já havia aqui uma nascente comunidade, chefiada por Tibiriçá, com muita "assessoria" de seu genro, João Ramalho (17).

 

(14) Anhangabaú (anhangá-y):

Alguns historiadores interpretam que Anhangabaú, na linguagem indígena, significa lugar de "muitos maus espíritos".

Mas Anhangabaú também significa muitas coisas ruins.

Neste caso, as águas eram ruins para beber e provocavam doenças.

Os índios tinham razão, pois, já no século XVII, se constatava que suas águas eram salobras e causavam doenças.

E o engenheiro Sanchez d'Oria, em 1791, examinou as águas do  Riacho Yacuba, (Yacuba ou Acu, significa em Tupi "água envenenada"), que nascia na confluência da Rua Brigadeiro Tobias com a então ladeira da Santa Ifigênia.

Descia pela Praça do Correio, serpenteando, até desaguar no Anhangabaú.

Sanchez d'Oria comprovou:

"É água ácida e vitriólica, com base calcária de oca e partículas arsenicais, sumamente saturada de gás mefítico".