História da fundação dos bairros do Bixiga e do Bexiga

Egydio Coelho da Silva

 

Capítulo I - Apresentação

·         Motivo, que determinou a produção deste livro.

·         Inauguração de um bem público marcou o nascimento do bairro.

·         Considera-se Antônio José Leite Braga o fundador do Bixiga.

·         Algumas pessoas confundem datas históricas importantes com a data de fundação.

·         A cidade de Marília-SP é exemplo de data histórica importante, que foi considerada a da fundação.

·         Campos Novos Paulista, a cidade que Assis fez encolher e ficar anã.

·         Quem foi o primeiro paulista e quem foi o primeiro brasileiro?

·         Conceito de propriedade indígena:

 

* "Como se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?"

* Quem fundou São Paulo: padre José de Anchieta, cacique Tibiriçá, João Ramalho ou o padre Manoel da Nóbrega?

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Motivo, que determinou a produção deste livro


Este livro surgiu porque, em reuniões da sociedade União do Bixiga
(1)
, se perguntava por que não havia um dia para ser considerado como a data de fundação do bairro.

 

(1) União do Bixiga:
Entidade, tipo sociedade de amigos de bairro, fundada e presidida inicialmente por Nélson de Abreu Pinto, proprietário do então Restaurante La Távola.
 Suas reuniões aconteciam no próprio restaurante.
Tinha por finalidade unir todas as lideranças e entidades do bairro no trabalho de melhorias e de preservação dos valores culturais do Bixiga.

 

Alguns participantes da reunião se comprometeram a fazer pesquisas, mas de antemão já havia quase consenso de que o bairro era muito antigo; teria nascido pouco tempo depois da fundação de São Paulo que foi em 25 de janeiro de 1554.
Voltei para casa, matutando sobre esse assunto e me deu um estalo quando cai na real e entendi que não era correta a interpretação de que o bairro era muito antigo.

Como poderia ser antigo se tudo mundo sabia que se tratava de um bairro formado inicialmente pela maioria de imigrantes italianos (2)?

 

(2) Imigrantes italianos:
A intensa imigração de italianos, no final do século19, tornou a cidade praticamente bilíngüe.

Indústrias e bairros novos surgiram por todos os lados.
A cidade que, segundo o recenseamento de 1872, tinha pouco mais de 31.000 habitantes, alcançava 65.000 em 1.890 e cerca de 200.000 em 1900.

Um crescimento espantoso de quase 700% em apenas 28 anos.

 

Ai então comecei a reler diversos livros, que falavam da história do Bexiga ou do Bixiga.

E esta pesquisa me levou a constatar que realmente o bairro nascera num momento em que a imigração de italianos em São Paulo era muito forte.
Encontrei então a data de primeiro de outubro de 1878, quando D. Pedro II
(3)
lançou a pedra fundamental de um hospital no bairro.

 

(3) Dom. Pedro II:
O segundo Imperador do Brasil reinou durante 58 anos, era filho de Dom  Pedro I, nasceu no Rio de Janeiro, em  dois de dezembro de 1825.
Foi
batizado com o nome de Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel.
A abdicação do pai tornara Pedro II imperador com apenas cinco anos. Dom Pedro II demonstrou muito tirocínio e sempre esteve atento às novidades tecnológicas do seu tempo e procurou, no seu império, modernizar o Brasil.

Faleceu em Paris em  cinco de dezembro de 1891, aos 66 anos.


Este hospital não teve sequer sua construção iniciada, o que confirma a máxima de um humorista argentino:

“La piedra fundamental es la única que no es fundamental”.

No entanto, a inauguração solene do loteamento, contando com a presença do Imperador, que lançou a pedra fundamental do hospital, mostra que já havia uma pequena comunidade no local.

Encontrei também, um anúncio de terrenos no Bexiga (4), no mesmo loteamento, onde o hospital deveria ser construído.

O anúncio, publicado em 28 de julho de 1878, dois meses antes do lançamento da pedra fundamental do hospital, evidencia que o loteamento já estava legalizado.
Muito embora não deixe claro se já havia moradores no bairro.

 

(4) Terrenos do Bexiga:
Vendem-se magníficos terrenos às braças ou em grandes lotes, com pastos ou matas, a vontade do comprador.
Não há nada a desejar nestes terrenos dentro da cidade, água corrente, em diversas fontes, lindos golpes de vista para as bonitas chácaras, ruas de 60 palmos de largura.
Preços baratíssimos, desde 20$, 30$, 40$ até 50$000 a braça, com 30 braças e mais de fundo, conforme a localidade escolhida.
A planta acha-se nas oficinas de Santo Antonio, no Bexiga, podendo ser examinado a qualquer hora, tanto a planta como os terrenos.

Para tratar com proprietários na mesma oficina ou com E. Rangel Pestana, na Rua Imperatriz n. 44. (Anúncio, publicado em “A Província de S. Paulo”, hoje O Estado de S. Paulo em 28/07/1878.)

 
Este fato poderia gerar a interpretação de que, se alguns lotes já tinham sido vendidos, o bairro havia nascido antes do lançamento da pedra fundamental do hospital.
Mas o que consolida o nascimento do bairro, com certeza, é o inicio de construção de um bem público.
Neste caso, o hospital, que seria usado pelos moradores.

A prova de que o bairro realmente nasceu em 1º de outubro de 1878 ficou ofuscada, quando localizei um ofício de 30 de janeiro de 1793, dando conta de que as autoridades municipais autorizaram o transporte de pedras para ao primitivo chafariz do Bexiga.
Este fato está registrado no Arquivo Aguirra (34).

 

(34) Arquivo Aguirra.
Acervo documental produzido, coletado e organizado por João Baptista de Campos Aguirra (1871-1962).
Trata-se de coleção de fichas, mapas, cadastros, livros, fotografias, entre outros itens, que integram um dos fundos do Serviço de Documentação Textual e Iconográfica do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.


Portanto, em 1793, já se registra que a região, denominada Bexiga, existia.

Embora não fosse ainda uma comunidade com costumes e objetivos comuns.

Agora, então, eram 85 anos antes do ato solene de inauguração do loteamento, que me parecia mais correto para o surgimento do bairro, ocupado por maioria de italianos.
Acrescente que, um ano depois, em seis de fevereiro de 1794, uma escritura pública também deu nome de Chácara do Bexiga à região toda.

Portanto, 84 antes da data por mim interpretada, que seria a da fundação do bairro do Bixiga.
E por que, então, julgaria eu que o bairro do Bixiga não era um bairro bem antigo, contrariando o entendimento da maioria?
Parti da interpretação de que a data de fundação de um bairro ou de uma cidade deve ser o momento, em que a comunidade começa a surgir, como aconteceu com a cidade de São Paulo, que praticamente nasceu, quando se inaugurou o Colégio dos Jesuítas (11).

(11) Colégio dos Jesuítas

No dia 25 de janeiro de 1554, com a participação dos nativos, se construiu uma capela rústica, cujo objetivo era a catequese dos índios e também o de servir de abrigo a viajantes

 

.

O colégio e a pousada, situados entre os Ribeirões Tamanduateí
e Anhangabaú, ganharam fama entre os moradores do litoral
 e a vila começou acrescer.

Em 1824, a capela, o Colégio e o povoado na visão do pintor Baptiste Debret.

 

Na maioria das cidades, quando não se encontra documento robusto e confiável,  os historiadores consideram que a fundação das cidades se dá na data da escritura de doação de terreno para construção de um bem público a ser usado pela nascente comunidade.

E quase todas as cidades brasileiras têm como data de fundação o dia em que uma pessoa, que é considerada a fundadora, doa terreno para construção de um bem público.

Normalmente, o terreno se destina à construção de igreja, mas poderia ser hospital, escola, praça pública, estação ferroviária ou rodoviária.
Até mesmo um campo de futebol.

No caso do Bixiga, entendi que a melhor data é realmente 1º de outubro de 1878, quando D. Pedro II, imperador do Brasil, lançou a pedra fundamental de um hospital no terreno, doado por Antônio José Leite Braga (6), no loteamento, que o fundador arruara no início da Chácara do Bexiga.

 

(6) Antônio José Leite Braga, proprietário do loteamento do Bixiga, ofereceu uma quadra de seus terrenos, com 8475 braças quadradas, à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia.
Na carta, que enviou à Irmandade, Leite Braga diz que é "irmão" da Santa Casa, mas, "quando não fosse, isto não me abafaria o desejo de ser útil a uma instituição tão merecida do auxílio de todos".
 Conta nessa carta que chegou ao Brasil quando ainda criança e aqui conseguiu recursos que lhe permitiram agora fazer essa doação "a favor dos necessitados" (esta carta foi publicada no jornal "A Província de São Paulo", em 02/10/1878).

Porém, havia nessa doação uma cláusula: a Santa Casa teria que construir na quadra doada um hospital, destinado aos pobres de São Paulo.

E as obras deveriam se iniciar dentro de dois anos.

A Santa Casa aceitou a doação, mas não cumpriu a cláusula, que a obrigava a construir o hospital no Bixiga.
Preferiu investir no imóvel, próximo ao hoje Largo do Arouche, em vez de desviar recursos para outro empreendimento.
Antônio José Leite Braga faleceu, pouco tempo depois.

Após seu falecimento, a viúva, Eugênia de Araújo Braga, se casou, em segundas núpcias, com Fernando de Albuquerque, que prosseguiu nas vendas dos lotes e, conseqüentemente, na formação do bairro do Bixiga.

 

Espero que este livro não tenha apenas a utilidade de provar a verdadeira data de fundação do bairro, mas que sirva também de orientação a todos os que desejam descobrir a verdadeira data de fundação de sua cidade, de seu bairro ou de sua comunidade.

Nas minhas pesquisas, constatei que há cidades e bairros, que têm a data de fundação alicerçada na primeira prova de que a comunidade já existia ou começava a nascer.

A maioria das cidades escolhe a data correta da sua fundação.

Algumas, porém, nem sempre.
Confundem datas históricas importantes com a data de fundação.

Exemplo de descuido com a data de fundação, encontrei na história da cidade de Marília.

Recordo-me do diretor do jornal, Correio de Marília, Anselmo Scarano, me dizer, na década de 1970, num encontro de diretores de jornais na sede do CBI (8), que seu jornal era mais velho do que a sua cidade.
Seu jornal fora fundado no dia 1º de maio de 1928.

(8) – CBI-Consórcio brasileiro de imprensa, empresa com sede em São Paulo, que na época já era representante de mais de 60 jornais do interior do Estado de São Paulo.

 

Ironicamente ele censurava a escolha de uma data posterior à verdadeira data de fundação da cidade.

Pois, quatro de abril de 1929 é festejado como sendo a data de fundação de Marília (7).

 

(7) Marília começa a nascer, quando Bento de Abreu Sampaio Vidal abre um loteamento em seu patrimônio, sabendo que a Companhia Paulista de Estradas de Ferro vinha avançando seus trilhos.

A Paulista tinha por norma inaugurar as estações em ordem alfabética. 

Como a estação anterior era Lácio, logo a próxima deveria se iniciar com a letra "M". 

A própria Companhia Paulista então sugeriu a Bento de Abreu os nomes de “Marathona”, “Mogúncio” e “Macau”. 
Ele não gostou de nenhum e escolheu o nome de Marília, pois lera e se emocionara com o poema de Tomás Antônio Gonzaga, “Marília de Dirceu”.
Como distrito, já denominado Marília, foi criado em 22 de dezembro de 1926.

Elevada a município, sua instalação oficial se deu a quatro de abril de 1929, data em que é comemorada sua fundação.


Provavelmente, quem fez a pesquisa da história de Marília procurou uma data que, na ocasião, seria mais interessante, talvez até mais emocionante.

Não se preocupou com a data correta da fundação.
Mas, a verdade histórica é que já existia uma comunidade muito ativa e forte no local e até havia um jornal circulando quase um ano antes da data considerada de fundação da cidade.

É de se acreditar que dirigentes políticos da cidade optaram pela data de emancipação política de Marília, porque lhes era conveniente do ponto de vista político-eleitoral.

Trata-se de procedimento costumeiro em muitas cidades do interior do Brasil.
Portanto, constata-se que se escolheu uma data histórica importante, mas não a verdadeira data de sua fundação.

É pena que não haja maior desejo de se apurar a data correta de fundação de comunidades: cidades, distritos ou bairros.

A mim, me parece que é fundamental fazer justiça à memória dos verdadeiros fundadores.
Não há de minha parte intenção de criticar especificamente a aparente falta de preocupação com a verdade histórica de Marília.
Na realidade, muitas outras cidades fizeram a mesma coisa.

Tão somente esta citação tem objetivos didático e histórico.

 Ela é apenas um exemplo, pois igual a Marília, existem muitas outras cidades, que adotaram o mesmo critério: escolheram uma data histórica importante para indicar a fundação da cidade.

Na maioria dos casos, a emancipação política. 

Evidentemente que a data mais importante, inclusive da vida pessoal de cada um, é a primeira.

Por isso que, para cada indivíduo, sua data de nascimento é sempre a mais importante de todas as que marcaram sua existência.

Nem poderia ser diferente, porque nenhum outro acontecimento de sua vida teria sequer existido se não houvesse seu nascimento.
Com as cidades e bairros é a mesma coisa.

Não haveria outras datas históricas importantes para a comunidade, como elevação à condição de vila, de distrito, emancipação, etc. se a sua fundação não tivesse acontecido.

Emancipação política, elevação à comarca sequer teriam existido se não houvesse a fundação.
Portanto, a data de fundação é, sem dúvida, a data mais importante de uma comunidade.

E é na busca desta data que o pesquisador deve se ater por questão de fidelidade à verdade histórica.

Como exemplo de data correta de fundação, podemos citar a cidade de Assis, interior do estado de São Paulo.
Sua fundação se deu em 1º de julho de 1905, quando Francisco de Assis Nogueira (9), que tinha o título de capitão, doou terreno para construção de uma igreja.

 

(9) Capitão Francisco de Assis Nogueira.

Era bandeirante, por índole e formação.

Chefe de prestigio nas zonas, que povoava.
Sertanista experiente, muito respeitado, pelo seu bandeirantismo.

Deixou a cidade de Botucatu, quando esta já era comarca.

Ganhou os sertões da Alta Sorocabana.

Expulsou os índios.
Fundou povoações, principalmente a cidade de Assis, cujo nome relembra seu fundador.

Nasceu em Baependi-MG, no ano de 1821 e faleceu em julho de 1908, filho de Francisco de Assis Nogueira.

Tri-neto do Capitão Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, fundador da cidade de Baependi-MG.

 

O nascente povoado recebeu o nome de Assis, em homenagem ao seu fundador, Capitão Francisco de Assis Nogueira, e do santo de sua devoção, São Francisco de Assis.
Capitão Francisco registrou a doação do terreno para construção da igreja em Assis na comarca de Campos Novos Paulista (10).

(10) Campos Novos do Paranapanema
Atual, Campos Novos Paulista pode ser considerada a cidade que Assis fez encolher e ficar anã.

Campos Novos, a mais antiga cidade do Sertão do Paranapanema, começou a nascer por volta de 1852, quando José Teodoro de Souza, mineiro de Pouso Alegre, chegou à região, onde construiu diversas casas.

Em 1856, requereu às autoridades de Botucatu a posse das terras.

Nelas, construiu uma capela invocando São José, às margens do rio Novo (afluente do rio Paranapanema).

Em 1885, passou a município e elevado à comarca em 1892.
Era uma das três cidades mais importantes existentes no oeste do sertão paulista.

A mais próxima da capital de São Paulo era Sorocaba, mais ao interior, aparecia Botucatu e, a cerca de 500 km, ficava Campos Novos.

Quando se iniciou a construção da Estrada de Ferro Sorocabana, o projeto de sua penetração pelo interior de São Paulo previa sua passagem por Campos Novos.

Porém, os políticos locais entenderam que isto seria prejudicial porque aumentaria a insegurança e traria maus costumes à pacata cidade.

A partir de 1914, quando os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana chegaram a Assis, a maior parte da sua população migrou para Assis.
Posteriormente, até a comarca foi transferida para Assis.

Campos Novos Paulista, que seria hoje uma das maiores cidades do interior de São Paulo, estacionou e regrediu.

Talvez até tenha sido melhor: cidade pacata e com o melhor clima da região.

Sua população em 2015 não chegava a cinco mil habitantes.

É um dos 15 municípios paulistas considerados estâncias climáticas do Estado de São Paulo.


Também devemos destacar como correta a data de fundação da capital do Estado de São Paulo, cujos historiadores optaram pelo dia, em que se deu a instalação do Colégio dos Jesuítas.

Até então, em São Paulo, havia apenas aldeias indígenas.

Antes de 25 de janeiro de 1554, em São Paulo, havia apenas aldeias indígenas e a mais importante, com relação ao nascimento da cidade, era, com certeza, a chefiada pelo cacique Tibiriçá (12).

 

(12) Cacique Tibiriçá, nascido por volta de 1480, Tibiriçá (“maioral” em tupi) era um cacique, cuja aldeia tinha sede no Inhampuambuçu (lugar que se vê de longe), Largo são Bento.

Teve diversos filhos com diversas índias e a sua preferida era Potira, mãe da maioria deles. Em 1513 acolheu o naúfrago português, João Ramalho.

Tibiriçá se aproxima dos colonos portugueses, oferecendo apoio. Outros caciques achavam a atitude de Tibiriçá impensada e maluca.

Em 1553, os jesuítas chegaram ao Planalto de Piratininga e logo perceberam que a melhor forma de catequizar os índios era se aproximando de Tibiriçá.
Com ajuda de Tibiriçá, no dia 25 de Janeiro de 1554 inauguraram o Colégio Jesúita de São Paulo.

Tibiriçá inclusive transferiu sua tribo para aréa com o objetivo de proteger os jesuítas do ataque de outros índios. Ao redor do Colégio surgiu um povoado, que passou a se chamar Vila de São Paulo de Piratininga.

Por volta de 1560 os líderes tamoios convidaram Tibiriçá, de quase 80 anos, a participar da aliança.

Ele enganou os tamoios dizendo que se aliaria.
No dia do ataque os portugueses já estavam preparados e derrotaram os tamoios.

Tibiriçá matou seu próprio sobrinho, Jagoanharó, filho de Piquerobi, mas foi gravemente ferido.

Tibiriçá veio a falecer no Natal de 1562 na Vila de São Paulo de Piratininga com mais de oitenta anos. Teve seus restos mortais acolhidos na Igreja da Praça da Sé.

 

O cacique Tibiriçá era índio tupiniquim (13).

 

(13)Tupiniquins, também chamados tupinaquis, topinaquis e tupinanquins.

A origem da palavra teria como raiz a expressão tupinã-ki, ou "tribo colateral, o galho dos tupis".

Habitavam, por volta do século XVI, duas regiões do litoral do Brasil: o sul do atual estado da Bahia e o litoral do atual Estado de São Paulo, entre Cananeia e Bertioga.

Trata-se do grupo indígena com o qual se deparou a esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral em 23 de abril de 1500.
Os colonizadores portugueses fizeram amizade com os tupiniquins e passaram a frequentar as suas aldeias.

Queriam a aliança, com o intuito de proteger a vila de São Vicente.

Isto foi bom para os lusitanos, mas não para os tupiniquins, que tiveram de enfrentar a ira dos tupinambás, que atacaram e dizimaram a população de várias de suas aldeias.

 

Sua aldeia ficava na confluência do ribeirão Anhangabaú (14)

 

(14) Anhangabaú (anhangá-y):

Alguns historiadores interpretam que Anhangabaú, na linguagem indígena, significa lugar de "muitos maus espíritos".

Mas Anhangabaú também significa muitas coisas ruins.

Neste caso, as águas eram ruins para beber e provocavam doenças.

Os índios tinham razão, pois, já no século XVII, se constatava que suas águas eram salobras e causavam doenças.

E o engenheiro Sanchez d'Oria, em 1791, examinou as águas do  Riacho Yacuba, (Yacuba ou Acu, significa em Tupi "água envenenada"), que nascia na confluência da Rua Brigadeiro Tobias com a então ladeira da Santa Ifigênia.

Descia pela Praça do Correio, serpenteando, até desaguar no Anhangabaú.

Sanchez d'Oria comprovou:

"É água ácida e vitriólica, com base calcária de oca e partículas arsenicais, sumamente saturada de gás mefítico".
O Anhangabaú é alimentado principalmente pela

confluência de três cursos d'água, hoje canalizados: córrego Saracura (sob a Avenida 9 de Julho), córrego Itororó (sob a Avenida 23 de Maio) e córrego Bexiga (sob o edifício Japurá e Câmara Municipal).

O ribeirão Anhangabaú, a partir do antigo Largo do Bexiga, atual Praça da Bandeira, segue canalizado sob o Vale do Anhangabaú e deságua no ribeirão Tamanduateí, na altura do Mercado Municipal.

 

e do ribeirão Tamanduateí (15),

(15) Tamanduateí, a palavra de origem tupi significa rio dos tamanduás-bandeiras. Suas nascentes estão no município de Mauá. Passa também pelos municípios de Santo André e São Caetano do Sul e deságua no rio Tietê, em São Paulo.

Entre as décadas de 1870 e 1880, o ribeirão Tamanduateí tinha uma pequena ilhota, chamada de "Ilha dos Amores", ajardinada, ficava próxima da atual Rua 25 de Março; mantinha quiosques com bebidas e comidas, além de uma casa de banho e espaço para o descanso; era ponto de lazer do paulistano. Após vários alagamentos, a ilha foi abandonada e deixou de existir no início do século XX.

 

cujo local os índios chamavam de Inhampuambuçu (16), onde é hoje o Largo São Bento.

(16) Inhampuambuçu (lugar que se vê de longe): a colina, que ficava entre o vale do ribeirão Tamanduateí e o do ribeirão Anhangabaú, hoje Largo de São Bento.

 

Já havia aqui uma nascente comunidade, chefiada por Tibiriçá, com muita "assessoria" de seu genro, João Ramalho (17), que era "casado" com diversas índias, e já tinha muitos filhos.

 

17) João Ramalho nasceu em Vouzela, em 1493 e faleceu em São Paulo em 1580, aos 87 anos. Aventureiro, explorador português, que se internou pelo mato e se confraternizou com os índios. Era casado em Portugal com Catarina Fernandes, a quem

nunca mais viu depois da partida em 1512 em uma nau, sonhando encontrar a "Ilha do Paraíso", que se localizaria, onde é hoje o Brasil.

Naufragou na costa da futura capitania de São Vicente, por volta de 1513. Encontrado pelos índios, com eles fez amizade e adquiriu prestígio. Casou inslusive com Bartira, filha do cacique Tibiriçá e com ela teve nove filhos. Ramalho, além desses filhos, teve muitos outros com outras índias, filhas de caciques.

Na cultura nativa havia grande liberdade sexual e, também o costume e norma pelas quais um homem, ao se casar com uma mulher de uma determinada tribo, passava a ser membro dessa mesma tribo.

Assim, João Ramalho estabeleceu vínculos muito fortes com muitos caciques.

   

Portanto, os primeiros paulistanos já tinham nascido.

Mas, provavelmente, a principal história de amor de João Ramalho surgiu, quando ele fez amizade com o cacique Tibiriçá, que era chefe de uma enorme parte da nação indígena, estabelecida no hoje Planalto Paulista.

Conheceu, então, Bartira e com ela se casa, pois, além da vantagem de ser filha do cacique, era bonita, logo um bom partido. João Ramalho não vacilou.

Acrescentou Bartira ao rol de suas esposas e a nomeou a predileta.

Havia, pois, no local uma pequena comunidade, formada por índios da tribo de Tibiriça e alguns mamelucos, principalmente filhos de Ramalho, com muita promiscuidade no conceito da religião católica na época, que não admitia a bigamia.

Talvez este ambiente, que contrariava o conceito moral dos religiosos, fortaleceu a convicção do padre Manuel da Nóbrega (18)em instalar nos Campos de Piratininga (19) um colégio.

 

(18) Padre Manuel da Nóbrega nasceu, em 18 de outubro de 1517, em Portugal e faleceu no Rio de Janeiro em18 de dezembro de 1570, aos 53 anos.

Formado em filosofia e direito canônico pela Universidade de Coimbra. Pleiteou a cadeira de lente da Universidade, mas foi recusado por sofrer de gagueira.

Aos 27 anos, foi ordenado pela Companhia de Jesus em 1544. A ele se atribui o pioneirismo de ser o chefe da primeira missão dos jesuítas na América.

A convite do rei dom João III, veio para o Brasil na armada de Tomé de Sousa.

Chegou à Bahia em 29 de março de 1549.

 Deu início ao trabalho de catequese dos indígenas e fez intensa campanha contra a antropofagia existente entre os nativos, mas, ao mesmo tempo, combateu a sua exploração pelo homem branco.

Em 1549, comandou a fundação do primeiro Colégio dos Jesuítas em Salvador na Bahia e chefiou também a implantação do Colégio dos Jesuitas em São Paulo em 1554.

Em 1558, convenceu o governador Mem de Sá a aprovar leis de proteção aos índios, impedindo que fossem escravizados.

 

O objetivo era ensinar aos nativos a religião, seus valores morais e a língua portuguesa, inclusive o Latim, que aos jesuítas era fundamental para que as liturgias católicas fossem melhor assimiladas.

O Colégio dos Jesuítas, portanto, foi o primeiro bem público, inaugurado em 25 de janeiro de 1854, que é, sem dúvida, a melhor e mais documentada marca da comunidade em formação, que viria a ser a cidade de São Paulo.

Poderia alguém questionar e dizer que isto se deu antes da história de amor de João Ramalho e Bartira, "a qual, no meio a tantas, lhe mexeu com o coração".

O casal deixou uma descendência colossal, gerando os primeiros paulistas.

No bairro das Perdizes em São Paulo há duas ruas paralelas, uma com o nome de João Ramalho e a outra com o nome de Bartira.

Quem deu nome a essas ruas, com certeza, tencionava destacar que ambos sempre se mantiveram muito próximos um do outro.

Mas, ironicamente, embora próximos, por serem paralelas entre si os dois jamais se encontrariam...

De Bartira e Ramalho descendem milhões de brasileiros, espalhados sobretudo por diversos estados, princi-palmente em  São Paulo.
O padre Manuel da Nóbrega, ao instalar nos Campos de Piratininga (19) um colégio, tinha como objetivou ensinar aos nativos a reli-gião, seus valores morais e a língua portugue-sa.

Inclusive o Latim, que aos jesuítas era fundamental para que as liturgias católicas fossem melhor assimiladas.
O Colégio dos Jesuítas, portanto, foi o primeiro bem público, inaugurado em 25 de janeiro de 1854, que é, sem dúvida, a melhor e mais documentada marca da comunidade em for-mação, que viria a ser a cidade de São Paulo.
Poderia alguém questionar e dizer que isto se deu antes da história de amor de João Ramalho e Bartira, "a qual, no meio a tantas, lhe mexeu com o coração".
O casal deixou uma descendência colossal, gerando os primeiros paulistas.
No bairro das Perdizes em São Paulo, há duas ruas paralelas, uma com o nome de João Ramalho e a outra com o nome de Bartira.
Quem deu nome a essas ruas, com certeza, tencionava destacar que ambos sempre se mantiveram muito próximos um do outro.
Mas, ironicamente, embora próximos, por serem parale-las entre si os dois jamais se encontrariam...
De Bartira e Ramalho descendem milhões de brasileiros, espalhados por diversos estados, principalmente em São Paulo. (página 37)

O padre Manuel da Nóbrega, ao instalar nos Campos de Piratininga (19) um colégio, tinha como objetivou ensinar aos nativos a religião e seus valores morais.

 

(19) Piratininga: do Tupi Guarani, pira=peixe, e tining =seco: Nome indígena da região, onde hoje é a cidade de São Paulo. O Rio Tietê tinha muito peixe.

Quando transbordava e, depois voltava ao leito, a 

várzea (áreas ao largo do rio, onde hoje são os bairros do Bom Retiro, Brás, Mooca) ficava cheia de peixes “encalhados”.

Segundo o padre José de Anchieta, até 12 mil peixes ficavam “secando ao sol”.

 

João Ramalho foi o primeiro europeu a subir a serra, então chamada de Paranapiacaba (20) em direção ao planalto, onde fica hoje a cidade de São Paulo.

 

(20) Paranapiacaba: em linguagem indígena:

"lugar de onde se vê o mar".

 

Poderia pelo fato de João Ramalho e Bartira terem tido muitos filhos, antes da inauguração do Colégio, ser considerado por um historiador, mais preocupado com a formação étnica da população, que o primeiro paulista e paulistano veio ao mundo quando nasceu o primogênito do casal João Ramalho-Bartira.

Pois, aqui já há a miscigenação de branco com índia e teriam então iniciado a criação do povo paulista e paulistano. O primogênico do casal João Ramalho-Bartira deve ser considerado o primeiro paulistano.
Seria uma interpretação semelhante a que José de Alencar (21) deu ao surgimento do primeiro cearense, quando nasce o filho, Moacir,

 

(21) José de Alencar, escritor brasileiro nas-ceu em 1829. Sua obra principal, Iracema é, de certa forma, uma epopeia sobre a origem do estado do Ceará.
Tem como personagem principal a índia Iracema, a "virgem dos lábios de mel" e dos "cabelos tão negros como a asa da graúna".
Trata-se de um romance escrito em prosa poética, mas sempre apoiado em argumento histórico.
Iracema, escrito em 1865, trazia o subtítulo "Lenda do Ceará".
Alencar era cearense e confessa, em carta, que havia se inspirado em uma lenda, que ouviu, quando criança, sobre como surgira o “primeiro cearense”

 

 de seu personagem histórico, Martim Soares Moreno (22) e de sua personagem de ficção, a índia Iracema.
Neste mesmo sentido de formação étnica de um povo, João Ramalho, Bartira e seus filhos seriam as primeiras famílias paulistas.
Em Iracema, José de Alencar interpreta que o primeiro cearense é Moacir, filho de seu personagem histórico, Martim Soares Moreno (22).

 

(22) Martim Soares Moreno, soldado português, nasceu em 1586, fundador do Ceará, é o personagem histórico de José de Alencar.
Martim se enamora da personagem fictícia Iracema, com a qual teve um filho, Moacir, que seria o primei-ro cearense. Aqui a história se mistura com a ficção.
Martim Soares Moreno era ainda adolescente, quando participou da expedição de Pero Coelho de Souza ao Ceará em 1603, e aprendeu a língua dos índios e seus costumes.
Deu-se muito bem com os nativos, fez amizades, e a até passou a fazer parte de família indígina.
Tornou-se, mais tarde em 1612, o virtual fundador daquela capitania, hoje Estado do Ceará.


Igual interpretação sobre a origem do primeiro brasileiro, filho de Diogo Álvares Correa, o Caramuru, (23) e de sua

 

(23) Caramuru: Diogo Álvares Correa, fidalgo da Casa Real, viajando para São Vicente por volta de 1510, naufragou, em Salvador, na Bahia. Seus com-panheiros foram mortos pelos índios tupinambás.
Como foi o único sobrevivente, não sacrificado pelos tupinambás, em torno de si surgiram muitas lendas, nenhuma comprovada. Foi chamado pelos índios de Caramuru, que significa moreia, uma espécie de pei-xe sem osso, pois, Diogo fora encontrado no meio de pedras na praia, como costumeiramente acontece com esse tipo de peixe. Sua atuação foi fundamental para a integração dos índios e com os portugueses durante o início da colonização do Brasil.

 

mulher, a princesa tupinambá (24),

 

(24) Tupinambá, a palavra significa "todos da família dos "tupis". Este povo indígena falava o tupi antigo.

 

Catarina Para-guaçu (25).
Seus filhos formaram a primeira família brasileira registrada em 1528.

 

(25) Catarina Álvares Paraguaçu:
Era uma indígena tupinambá, da região, onde é hoje o estado da Bahia. Segundo a certidão do batismo, de 30 de Julho de 1528 em Saint-Malo, na França, o seu nome verdadeiro seria "Guaibimpará" e não "Para-guaçu" (nome que significa "mar grande"), como re-gistra Santa Rita Durão em seu poema Caramuru.
Oferecida como esposa por seu pai, o cacique Taparica, a Diogo Álvares, este prontamente aceitou a oferta. O náufrago português já gozava de muito prestígio entre os Tupinambás da Bahia.
O casal formou a primeira família documentada do Brasil. Guaibimpará ou Paraguaçu é considerada a mãe biológica de boa parte da nação brasileira.


Mas, neste livro, não estou à procura de exemplo da ori-gem de uma determinada naturalidade ou nacionalidade, mas sim na busca da data de nascimento de uma comunidade.

É quase unanimidade e - na minha opinião também – que não há dúvida de que a data correta da fundação de São Paulo é realmente 25 de janeiro de 1554, quando se inaugurou um bem público, o Colégio dos Jesuítas, que seria utilizado por esta comunidade.
Começava a nascer, então, a cidade de São Paulo.
Outros exemplos no Brasil, de datas de fundação muito bem escolhidas, existem iguais ou semelhantes ao da cidade de São Paulo.
Mas, não vamos cansar o leitor com mais exemplos, que apenas confirmam que a data histórica mais importante de uma comunidade é a da sua fundação.
E, para comprová-la, é fundamental haver algum documento, que dê garantia à verdade histórica.
E, na falta deste, o melhor ainda é a prova de inauguração de um primeiro bem público de uso comum da comunidade, a qual, com certeza, já existia ainda que rudimentar.
Também devemos discutir a figura do fundador de uma cidade ou de um bairro, o qual normalmente é aquele que doa terreno para a edificação de um bem público de uso da comunidade embrionária.

Fundador, normalmente, é quem doa terreno para a edificação de um bem público de uso da comunidade embrionária.
No bairro do Bixiga, o fundador deve ser considerado Antonio José Leite Braga, que doou o terreno para a construção do hospital, a qual não chegou a ser executada.
Se a quase unanimidade dos historiadores concorda com a data de fundação da cidade de São Paulo, o mesmo não acontece com a interpretação de quem seria o fundador da capital paulista.
As terras eram território da tribo, chefiada por Tibiriçá, que ocupava a região.
Porém, índio não tinha o conceito de propriedade (26) de terra, que temos nós, os "civilizados".
 

(26) conceito de propriedade indígena:
Em 1855, respondendo à proposta de compra de terra do presidente dos Estados Unidos, Francis Pierce, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, pergunta:
"Como se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?"
E explica seu conceito sobre a propriedade de terra:
"Tal idéia é estranha. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver.
O homem branco não valoriza sua terra. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos.
Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos.
Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem, que nada compreende.
O homem branco talvez venha um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus.
Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra.
Esta terra é querida por Ele. |
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos.
Protege-a como nós a protegíamos".

 

Nosso costume de doar, comprar ou vender terra era inconcebível aos nativos, que consideravam a terra como propriedade de todos.
Tibiriçá, provavelmente, achava que a terra pertence a quem a usa.
No entanto, no mínimo, entendia que o espaço ocupado por sua tribo era seu território e de sua tribo, agora ampliada com a presença do genro, João Ramalho, e seus descendentes.
De certa forma, cedeu espaço para instalação do Colégio dos Jesuítas.
Os índios, com certeza, têm consciência do território que lhes pertence, como acontece até com a maior parte dos animais.
E o hoje Pátio do Colégio, distante apenas cerca de 500 metros de sua aldeia, Inhampuambuçu (lugar, visto de longe), que se localizava, onde hoje se encontra a Igreja do Largo de São Bento, com certeza, era considerado território da tribo de Tibiriçá.
E João Ramalho, seu genro, já fazia parte de sua família.
É de supor que a decisão desta "doação" se deveu mais a João Ramalho, que tinha muitos motivos para ver seus patrícios e dirigentes de sua religião instalados no território de seu sogro.
A glória de ser o fundador de São Paulo até hoje pertence, no conceito geral, ensinado na maioria dos bancos escolares, ao Padre José de Anchieta (27).
 

(27) Padre José de Anchieta nasceu em 1534, no arquipélago das Canárias.
Sua mãe era filha de judeus cristãos-novos.
Anchieta viveu com a família até os quatorze anos de idade, quando se mudou para Coimbra, em Portugal, a fim de estudar filosofia.
A ascendência judaica foi determinante para que o enviassem para estudar em Portugal, uma vez que na Espanha, à época, a Inquisição era mais rigorosa. Ingressou aos 17 anos na Companhia de Jesus. Temendo por sua saúde frágil, seu superior o enviou ao Brasil, por acreditar que novos ares seriam benignos para o noviço.
Com menos de 20 anos de idade, chegou a Salvador em 13 de Julho de 1553. Veio para São Vicente em outubro do mesmo ano, portanto, três meses antes da fundação de São Paulo.
Anchieta colaborou intensamente na penetração das selvas, aprendendo a língua tupi, catequizando e ensinando os índios, inclusive latim, para melhor entenderem a liturgia católica.
Em 1563, demonstrou habilidade diplomática ao participar do conflito conhecido como a Confederação dos Tamoios, como mediador da paz entre os portugueses e os índios. Feito refém pelos indígenas de Iperoig (região, onde se encontra a cidade de Ubatuba) e ali permaneceu durante cinco meses.
O episódio gerou o primeiro tratado de paz entre colonizadores e indígenas, evitando que os índios, enfurecidos, destruíssem as vilas portuguesas, principalmente São Paulo. Compôs o Poema à Virgem, de 4172 versos, enquanto estava no cativeiro dos tamoios e diz a lenda que o havia escrito na areia da praia.
Graças à sua memória excepcional, mais tarde, o poema foi transcrito para o papel.
Considerado o primeiro dramaturgo, o primeiro gramático e o primeiro poeta nascido nas Ilhas Canárias. Também é um dos primeiros autores da literatura brasileira. Compôs inúmeras peças teatrais e poemas de teor religioso e uma epopéia.
Foi historiador e "jornalista", que noticiava a seus superiores os principais acontecimentos no início da colonização de São Paulo. Escreveu a primeira gramática sobre uma língua do tronco tupi: a "Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil", que foi publicada em Coimbra em 1595.
A ele se deve o registro da fundação de São Paulo.
Em carta a seus superiores da Companhia de Jesus, diz:
“A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de1554, celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!"
Faleceu em 1597 aos 63 anos de idade.

 

Quase unanimidade dos paulistas e paulistanos acha que o padre José de Anchieta fundou São Paulo.

Mas, o próprio Padre Anchieta entendia diferente, quando escreve que “João Ramalho era fundador e conservador da Casa de Piratininga" (peixe seco, nome indígena da região, onde se encontra a cidade de S. Paulo).

(página 48-20-04-24)

 

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