História da fundação dos bairros do Bixiga e do Bexiga

Egydio Coelho da Silva

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NOVO BAIRRO DO BIXIGA

 

No loteamento de parte da Chácara do Bexiga, o Bixiga começa a surgir em primeiro de outubro

de 1878.

Foi inaugurado solenemente, com a presença do Imperador Dom Pedro II, que visitava a cidade de São Paulo, pela terceira vez.

 Dom Pedro II lançou a pedra fundamental de um hospital, no Bixiga, que seria construído na quadra, formada pelas ruas Santo Antônio, da Misericórdia (Abolição), São Domingos e Conselheiro. Ramalho. A pedra fundamental, "foi ela conduzida em padiola até o lugar, onde tinha que ser lançada por Dom Pedro II".

Bexiga ou Bixiga

Quando se fala do Bexiga (com "e", como é a grafia registrada em dicionários ou Bixiga, com "i" (como já vem sendo aceita até por gramáticos), pensa-se que é um bairro antigo.

Pois, o Bexiga era próximo ao centro, no máximo a dois quilômetros do Pátio do Colégio, onde foi fundada a cidade de São Paulo.
Na verdade, a confusão surge porque existem três fatos históricos e geográficos, que precisam ser analisados:
1) O antigo Bairro do Bexiga:

2) A Chácara do Bexiga.

3) Novo Bairro do Bixiga.

ANTIGO BAIRRO DO BEXIGA

Assim chamado a partir do início do século 19.

Compunha-se do Largo do Bexiga, o qual, após 1865, passou a chamar-se Largo Riachuelo (hoje é a Praça da Bandeira) e do Largo do Piques, hoje Largo da Memória.

CHÁCARA DO BEXIGA

Era mata cerrada não só em 1559, quando ainda Sesmaria (30) do Capão, registrada em seu próprio nome por Antônio Pinto, tabelião de Santos, mas também em 1794, quando foi vendida pelo Capitão Melchior já com o nome de Chácara do Bexiga.

(30) Sesmaria: Terreno abandonado ou sem cultivo, que os reis de Portugal cediam aos novos povoadores no Brasil.


Até quase no final do Século XIX, a Chácara do Bexiga ainda era mata e quase impenetrável.
Como nossa pesquisa se atém na busca da comunidade, núcleo populacional, que deu origem ao bairro, não há de nossa parte preocupação maior com a "descoberta" e grilagem da região, mas sim com a população, que criou o novo bairro do Bixiga.
Temos recebido crítica dos que acham que o início do bairro deveria ser em 1559, quando o tabelião de Santos, Antônio Pinto, registrou a sesmaria em seu nome.
Ele teria descoberto a região, a qual provavelmente sequer visitou ou em 1794, quando recebeu o nome de Chácara do Bexiga.
Porém, em nenhuma dessas datas houve estabelecimento de núcleo populacional na região.
Daí serem datas importantes históricas, mas não registram nascimento de nenhum bairro.

Também nos têm criticado pessoas, que entendem que os primeiros habitantes da Chácara do Bexiga foram os negros. Portanto, teriam sim participado da fundação do bairro.

De fato, os historiadores são unânimes em afirmar que o local era preferido pelos escravos fugidos.

Nisto eles têm razão.
Com certeza seus primeiros moradores foram os negros, que nela se refugiavam.
Eles se escondiam nas matas, nas capoeiras, desde o Saracura (Praça 14 Bis) até a região do morro, o Caaguaçu (31), onde é hoje a Avenida Paulista.

 

(31) Caaguaçu:
 Em linguagem indígena, lugar alto ou animal de cabeça grande.


É evidente, portanto, que na Chácara do Bexiga se instalou algum quilombo, talvez com alguma organização social de fortificação precária e camuflada. Portanto, se conclui que os primeiros habitantes da Chácara do Bexiga só podem ter sido os negros, escravos fugidos.
Mas a comunidade, que se formou no começo da Chácara, em 1878, no loteamento entre as ruas da Abolição e Rui Barbosa, nada teve a ver com o restante da Chácara do Bexiga, que ia até onde é hoje a Rua Estados Unidos.
A Chácara continuava mata fechada, provavelmente servia de esconderijo a escravos aquilombados, que se libertaram somente dez anos mais tarde, em 1888.

A Chácara do Bexiga começou a desaparecer, quando o fundador do bairro implantou o loteamento do terreno.
Mais tarde, em primeiro de outubro de 1878, teve a pedra fundamental do hospital, lançada por D. Pedro II, quando, praticamente, se deu a fundação do bairro.
Os negros só se libertaram dez anos mais tarde, portanto, não teriam como participar da sua fundação, mesmo porque a aglomeração de escravos fugidos se dava próximo ao Caaguaçu, Morro da Paulista, e não no início da Chácara do Bexiga.,
"Pouco antes de seu loteamento, a área onde se formaria o bairro do Bixiga, apresentava-se bastante selvagem.
Ainda em 1870, nessa área, “caçavam-se perdizes, veados e até escravos foragidos" (historiadora Nádia Marzola, citando A. de Freitas).
Antes do loteamento, portanto, não existia nada na Chácara do Bexiga, que indicasse uma comunidade organizada socialmente.

NOVO BAIRRO DO BIXIGA|

O loteamento na parte inicial da Chácara do Bexiga fez nascer um novo bairro.

Na área, onde ia nascer o Bixiga, os lotes de terreno, conforme planta (32) eram pequenos,  baratos e localizavam-se próximo ao centro.
 

(32) Planta do loteamento - 1.890
 

Planta do terreno: 1890:
Rua da Misericórdia (hoje Rua Abolição).
Rua Valinhos (hoje Rua Major Diogo) terminava na Rua São Domingos.

 O quadrilátero, formado pelas ruas Abolição, Conselheiro Ramalho, São Domingos e Santo Antônio, foi doado para construção do hospital.

Na área, onde ia nascer o Bixiga, os lotes de terreno eram pequenos,  baratos e localizavam-se próximo ao centro.
Por isso as pessoas, que mais se interessaram, foram os italianos, gente pobre e recém-chegada ao Brasil, a maior parte vinda da Calábria.

 

E as pessoas, que mais se interessaram, foram os italianos. A maior parte deles vinda da Calábria, ao ficarem juntos, num espaço geográfico pequeno, mantiveram boa parte de seus hábitos e costumes.
Aculturaram-se com os paulistanos, com nordestinos e com os negros, que, ao se libertaram em 1888, dez anos após a fundação do bairro, tiveram acentuada participação na formação da comunidade bixiguense.
Tratava-se de um fenômeno urbanístico novo, com a presença de grupo de pessoas com cultura e costumes comuns, que nada tinha a ver com o antigo bairro do Bexiga, onde a maior parte dos moradores era paulistana.

E se localizava em espaço geográfico diferente, como o Largo do Bexiga, onde se achava a Estalagem do Bexiga.

E como o Largo do Piques, onde se encontravam o obelisco e o Chafariz, ambos formavam o antigo bairro do Bexiga e hoje são a Praça da Bandeira.
O novo bairro do Bixiga também não se confunde com a Chácara do Bexiga, que, na sua maior parte, era ainda mata fechada.

 Na falta de documento confiável, sabe-se que o principal marco histórico, que caracteriza o surgimento de uma comunidade, é quando se constrói um bem, que seja de uso comum de todos, como: igreja, hospital, praça pública, etc.
Entendemos que a doação de um terreno por Antônio José Leite Braga à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (32) para construir um hospital, época em que todos se preocupavam com as constantes epidemias, que assolavam São Paulo, caracterizou o seu nascimento.

 

(32) Santa Casa de Misericórdia de S. Paulo:
A Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo é uma instituição filantrópica e privada.
Não há registros da data exata de sua fundação, mas estima-se que tenha sido criada por volta de 1560.
Já esteve estabelecida no Largo da Misericórdia, na Chácara dos Ingleses e na Rua da Glória, até preferir construir o seu hospital, em 1884, no bairro de Santa Cecília e não no Bixiga.


A PRIMEIRA FESTA DO BIXIGA

Historicamente, o Bairro do Bixiga, como o conhecemos, já surgiu com entusiasmo e com festa.
Isto aconteceu em primeiro de outubro de 1878.
O loteamento foi inaugurado solenemente, com a presença do Imperador Dom Pedro II, que visitava a cidade de São Paulo, pela terceira vez.
O hospital deveria ser construído, no quadrilátero,  formada pelas ruas Santo Antônio, da Misericórdia (Abolição), São Domingos e Conselheiro Ramalho.
O fundador do Bixiga, Antônio José Leite Braga. se dizia "irmão da Santa Casa de Misericórdia", também seu benfeitor e, de certa forma, uniu seu sentimento religioso a uma visão empresarial.
Evidente que aproveitou a presença do Imperador em São Paulo, que atraiu ao evento autoridades e mais de duas mil pessoas, o que valorizou o seu empreendimento.
Mas, o importante, é que a data do lançamento da pedra fundamental para se construir um hospital, que seria uma grande benfeitoria comunitária, é, sem dúvida, a mais certa, para caracterizar o surgimento do bairro Bixiga.
O ato foi presidido por Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, nono bispo de São Paulo. (93).
 

(93) Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho,

nono bispo de São Paulo.

Em 1856, foi deputado provincial pelo Partido Conservador.

 E ainda presidente da província de Sergipe, deputado geral, ministro-presidente junto ao Uruguai, então província brasileira.
Indicado bispo de São Paulo por Dom Pedro II, a 21 de maio de 1871, aos 44 anos, e foi confirmado pelo Papa Pio IX, em 28 de julho de 1872.
Sagrado bispo em São Paulo no dia nove de março de 1873.

Foi o último bispo de São Paulo, indicado pelo imperador.
Proclamada a República do Brasil em 1889, houve a separação entre a Igreja e o Estado.


Presentes também o senador João Lins Vieira Cansanção, visconde de Sinimbu, presidente do Conselho de Ministros, e João Batista Pereira, presidente da Província de São Paulo.
Depois da bênção da pedra fundamental, "foi ela conduzida em padiola até o lugar, onde tinha que ser lançada por Dom Pedro II”.
 

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